Há exatamente
um ano eu estava acordando na minha nova casa em São Paulo, para me afastar da dor desgraçada que estava sentindo. Foi uma decisão muito acertada. Pagamos todos um preço por isso. Eu, meus pais, a Nina e até minhas cachorras. O preço em dinheiro foi grande, gastamos bastante para executar o plano de fuga. Fiquei quase um ano em uma situação de exílio. Sem amigos, sem vida social, sem saber de nada, sem segurança profissional, sem minhas casas e sem a ausência violenta do Zé. Na lista do “com”: com amor e total apoio da família que foi comigo, com tudo. E isso foi muito mais do que todas as faltas.
Quando as pessoas em volta da gente nos veem assim frágil, insegura, sem coragem, sem rumo, querem nos dar algum caminho a seguir, ideias, dar uma força, ver de fora o que realmente nos fará bem. Agora eu posso avaliar melhor o que passei e se servir de alguma coisa para outras viúvas e viúvos, vou dizer exatamente como me senti.
Quando o Zé morreu, senti o que o senso comum fala e que achamos piegas e idiota: pelo menos metade de mim se foi junto. Metade do meu conteúdo como criatura que nos tornamos os dois juntos. Uma criatura muito mais interessante que eu sozinha. Perder aquela metade que enriqueceu e tornou possível a criatura que era tão interessante pra nós dois foi demais. Perdi ali pelo menos a metade do que sentia que poderia valer. Não tinha mais a companhia dele, a amizade, o conhecimento, a música, a vida social, a memória, o pai da minha filha.
Eu sempre falava que algumas pessoas só falavam comigo quando eu estava ao lado do Zé. Sozinha muitas vezes parecia que não me reconheciam, eu odeio isso. Detesto aquelas pessoas que me encontravam com o Zé e faziam uma festa e quando me encontravam sem o Zé no cabeleireiro, passavam como se nunca tivessem me visto. Eu pensava: “Será que minha cara é tão comum assim? Por que eu sei exatamente quem esse cara é, o amigo do Zé e ele nunca se lembra de mim, se o Zé não estiver ao meu lado?” Uma vez fui ao Jô Soares falar de um livro com a minha amiga Marcela Catunda. No meio da entrevista, num breve momento a câmera filmou o Zé e o Paulo que estavam na plateia. Muitas pessoas só perceberam que eu era eu (gente que me conhece) depois que viram o Zé. Caceta, eu passei a ser vista depois que o Zé passou a existir na minha vida. Sem ele, eu sumi de novo. E assim, valendo pouco de um dia pro outro eu estava em São Paulo de novo e me submeti a uma série de encontros profissionais num movimento para me recolocar na vida. Era o que todos imaginavam.
Valeu a pena para eu saber o que está rolando na publicidade, como está o mercado, ver algumas pessoas que achei legal ver, ver outras que achei uma droga ver. Fazer contato com a vida ligada ao consumo, da qual quis me afastar e da qual todos precisamos em alguma medida. Querer manter a distância de muitos aspectos dessa vida para a qual quase todos caminhamos, em busca de dinheiro e reconhecimento mundial, porque hoje não basta o amigo do Zé me reconhecer. Tenho que ser aprovada pelos amigos dos amigos, até mesmo daqueles que estão em outros países, com quem não falaria se estivessem na mesa ao lado, simplesmente porque não tenho nada a ver com eles. Isso acontece no Facebook.
Quer dizer, a pessoa está viúva, desequilibrada, triste pra cacete e se sentindo um c*****.
Aí vai pra maior cidade do Brasil e se submete a momentos de pressão total, em entrevistas de trabalho.
Não foi nada bom. Essa parte eu não repetiria e aqui fica a dica: não força. Deixa todo mundo falando sozinho, porque ninguém sabe como a gente está massacrada e que aquilo não pode dar em nada bom.
Ha cerca de um mês eu senti pela primeira vez em 19 meses que tinha muita vontade de produzir, criar, malhar. E isso está se traduzindo naturalmente em criação, trabalho, atividade física, encontros com amigos que não tinha vontade de ver. Isso está acontecendo de novo aos poucos e acho que no tempo certo.
Então parabéns pra mim que no ano passado estava com minha vida toda certinha, passei por isso tudo, perdi o Zé, vi uma filha sofrer, fui, voltei e posso contar isso tudo sem o Zé, sem derramar nenhuma lágrima e sem sentir pena de mim.
Simbora.